Turistar ou morar fora?
As descobertas de quem decide morar fora de seu país de origem, seja por trabalho, estudo ou mesmo para realizar um sonho, não começam no primeiro, nem no segundo, muito menos no terceiro ano de experiência. Ouso dizer que é lá pelo quarto ano que os questionamentos começam a bater na porta.
E aqui vai um relato pessoal, pois eu comecei a escrever esta matéria, justamente por estar nessa fase de questionamentos. Moro na Irlanda há cinco anos - durante quase dois anos desse período, vivi em Portugal. Antes de me mudar para a “Ilha Esmeralda” - como a Irlanda é carinhosamente lembrada, pela sua área verde e deslumbrante -, eu não coloquei esses questionamentos à mesa. E sabe por quê?
Porque lá atrás, quando eu decidi que moraria em outro país, os sonhos de viver uma nova cultura e construir minha família foram maiores do que qualquer desafio que pudesse surgir no meio do caminho.
E está tudo bem se você, assim como eu, embarcou em busca de um sonho! O que não está tudo bem é permitir que esses questionamentos aumentem. Talvez, por medo, vergonha ou mesmo… “deixar a vida te levar…”
Enquanto eu estudava para escrever esta edição da newsletter Para conectar e transformar, assisti ao episódio “Ser x pertencer: morar fora é tudo isso, mesmo?”, do podcast FMyBrain, e foi uma sincronicidade tão grande que eu logo entrei em contato com a psicóloga entrevistada para falarmos mais sobre esse assunto.
Milena Lhano é psicóloga, mestre em terapia de casal e de família, e especialista em expatriados. Ela ajuda pessoas que querem mudar de país a se planejarem de acordo com a realidade de cada uma. Ela diz que, além do planejamento financeiro - que é importantíssimo - o planejamento emocional deveria ser tão importante quanto o financeiro, pois vamos depender dele para, de fato, nos permitir construir o sentimento de “estar em casa”.
É possível encontrar um lar longe de casa?
“É possível nos sentirmos em casa quando mudamos de país, mas esse sentimento é uma construção. Não vai ser imediato, nem rápido e também não vem apenas com o aprendizado do idioma. O sentimento de pertencimento vem à medida que nos inserimos na cultura e começamos a incorporar alguns hábitos do novo país”, explica Milena.
No meu caso, lá em 2019, quando cheguei à Irlanda, vim como intercambista e meu noivo, Fábio, já estava no país, há um ano. (Ele passou os primeiros perrengues para “colocar a casa em ordem” antes que eu chegasse). Enquanto estudante, temos contato com pessoas de diversos países, todos os dias. E isso é ótimo! Tenho amigos até hoje, cada um em um canto do mundo.
Depois de quase dois anos, fomos morar em Portugal, porque precisávamos acompanhar o processo de nacionalidade portuguesa do Fábio - e também pensávamos em construir nossa vida por lá. E lá se vão mais quase dois anos de adaptação. A gente ama Portugal! Mas, naquele momento, a economia do país não supria as nossas necessidades e, então, decidimos voltar para a Irlanda. Mais uma adaptação, só que, desta vez, com a nacionalidade em mãos!
Durante todo esse tempo, tivemos vitórias e perrengues: bons trabalhos e ruins também. Dificuldade com o idioma nem se fala! Quase duas semanas procurando moradia também nem se fala. Amigos que, na verdade, não eram amigos de verdade. São tantas, tantas vivências que a gente não imagina antes de embarcar.
Entretanto, são experiências que contribuem para o nosso desenvolvimento enquanto seres humanos, para as nossas escolhas. Agora, a questão social é a que mais me traz questionamentos nesse momento. Fábio também sente, mas segue o baile. Já eu… esse tem sido o maior desafio morando fora do Brasil. Fui buscar ajuda!
Como fazer parte de um novo país e criar vínculos sociais
Conversando com Milena, ela disse que algumas formas de fazer parte da cultura do país são, por exemplo, ter amigos locais, participar de eventos na cidade, assistir TV e conhecer artistas locais, experimentar comidas diferentes, entre outras.
“São alguns exemplos de outros pilares da construção do pertencimento que vão além do idioma. E quando estiver difícil de lidar com o não pertencimento (esse sentimento existe, mesmo, vai e volta várias vezes), procure se acolher, entender o seu processo de adaptação e integração, quais são as suas dificuldades e continuar firme nele.”
Hoje, eu entendo o quanto a imersão na cultura é importante, e é o que eu mais sinto falta. Acredito que, com o tempo, as responsabilidades vão aumentando, a insegurança e os medos também, mas quando temos uma rede de apoio o caminho fica mais leve.
Por aqui, são dias de altos e baixos, mas com a esperança de que, com novas imersões, a “Ilha Esmeralda” terá mais “cara de casa” para mim - e para tantos brasileiros que moram em outros países.
O que fica de lição de tudo isso são duas palavras: planejamento e raízes. Por onde quer que a gente vá, sempre levaremos nossas raízes com a gente. Como diz a psicóloga, Milena, “nossa casa é dentro da gente”. Mas, para que possamos construir o sentimento de pertencimento, temos uma longa tarefa: criar novas raízes e permitir que aquele novo país também seja a “nossa casa”.
Algumas dicas que estão me ajudando nesse caminho e também podem ajudar você ou alguém da família que more fora.
Participe de grupos de estudos ou religiosos: quer coisa melhor do que conviver com pessoas que gostam das mesmas coisas de que você gosta? Buscar ajuda do Criador é fundamental! Posso dizer que Ele sempre será a nossa primeira rede de apoio;
Pratique atividade física - e conheça novas pessoas por onde você passar:Seja na academia, na praça, na praia ou no centro comunitário, a atividade física une pessoas que se preocupam com a saúde e também pode ser um caminho leve para criar pertencimento;
Participe de eventos sociais e voluntários: quando a gente compartilha, a gente encontra respostas dentro da gente. Eventos sociais e voluntários nos ajudam a colocar em prática o que temos de melhor, ajudar ao próximo, conhecer novas pessoas e ajudar a si mesmo.
O mais importante é acolher o processo de pertencimento, pois para cada pessoa isso pode acontecer em um tempo diferente. E, se quiser voltar, faça isso com o sentimento de gratidão e aprendizado. Tudo na vida são experiências para que a gente, de fato, descubra a nossa casa dentro da gente.
Escritaterapia
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